Home CulturaMarcélia Cartaxo: da Macabéa ao reconhecimento internacional, um retrato da resistência no cinema brasileiro

Marcélia Cartaxo: da Macabéa ao reconhecimento internacional, um retrato da resistência no cinema brasileiro

Atriz paraibana é homenageada na 23ª Goiânia Mostra Curtas por sua trajetória marcada por talento, persistência e pela crítica à falta de espaço para o cinema autoral no Brasil

by Redação
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A 23ª Goiânia Mostra Curtas, que acontece de 7 a 12 de outubro, traz em sua abertura uma homenagem à atriz e diretora Marcélia Cartaxo, um dos nomes mais marcantes do cinema nacional. Descoberta ainda jovem por Suzana Amaral, Marcélia imortalizou a personagem Macabéa, de A Hora da Estrela (1985), obra que lhe rendeu o Urso de Prata no Festival de Berlim e o prêmio de Melhor Atriz em Brasília. Desde então, sua carreira tem sido uma mistura de aclamação e resistência — como se a cada novo papel ela precisasse reafirmar sua potência artística em um país que ainda não valoriza plenamente seus talentos.

Ao longo de mais de quatro décadas, Marcélia coleciona papéis de densidade emocional — de Madame Satã (2002) a Pacarrete (2019), passando por A Mãe (2022) — e também assumiu a cadeira de diretora em curtas-metragens que exploram identidades, memórias e resistências. Sua filmografia é, em grande medida, um espelho das contradições do Brasil: um país rico em narrativas, mas pobre em políticas consistentes de fomento ao cinema independente.

A homenagem da Mostra Curtas, ao mesmo tempo em que reconhece o legado de Marcélia, expõe uma contradição incômoda: artistas desse calibre muitas vezes recebem o devido reconhecimento apenas em festivais e circuitos especializados, enquanto permanecem distantes da visibilidade midiática e do apoio estrutural necessário para ampliar seu alcance. Marcélia não é exceção; é sintoma.

O festival, ao celebrar sua trajetória, convida também à reflexão: quantas “Macabéas” ainda não encontram espaço para existir no cinema nacional? A trajetória de Marcélia Cartaxo não é apenas uma história de conquistas, mas também de resistência frente às dificuldades de um setor constantemente ameaçado por cortes, descontinuidades e pela predominância de uma lógica de mercado que privilegia o produto imediato em detrimento da arte duradoura.

A Goiânia Mostra Curtas acerta ao transformar a noite de abertura em um ato de reconhecimento, mas cabe ao Brasil ir além das homenagens pontuais: garantir que trajetórias como a de Marcélia não sejam exceções heróicas, mas parte de um ecossistema sólido em que talento, memória e diversidade possam florescer.

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