Home PolíticaDebate no Senado reforça urgência de diálogo Brasil-EUA e novo acordo bilateral

Debate no Senado reforça urgência de diálogo Brasil-EUA e novo acordo bilateral

Especialistas alertam que tarifas impostas pelo governo Trump prejudicam exportações brasileiras e podem configurar tentativa de interferência política; estratégia multissetorial é defendida como caminho para reverter sanções.

by Redação
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Em audiência pública realizada nesta quarta-feira (24), especialistas, senadores e representantes de setores exportadores brasileiros destacaram a necessidade de um diálogo mais direto entre Brasil e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que defendem a negociação de um novo acordo bilateral para conter os impactos das tarifas impostas pelo governo Trump. A medida, aplicada a partir da Seção 301, foi considerada por autoridades brasileiras como “politicamente motivada” e cheia de “inverdades”, afetando principalmente produtos do agronegócio, etanol e serviços digitais.

O debate, presidido pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS) e promovido pela comissão do Senado que acompanha as relações econômicas bilaterais com os Estados Unidos, ressaltou a urgência de uma estratégia multissetorial. Senadores e representantes empresariais defenderam a combinação de esforços técnicos, diplomáticos e legislativos para contestar acusações americanas e prevenir novas sanções.

O diplomata Roberto Carvalho de Azevêdo destacou que a Seção 301 permite ao governo norte-americano manter tarifas de até 50% sobre 35,9% da pauta exportadora brasileira, independentemente de decisões da Suprema Corte americana. Para ele, a pressão política sobrepõe-se à análise econômica, reforçando a necessidade de interlocução constante entre setor privado e autoridades americanas.

 Em todas essas conversas ficou claro que o componente político domina qualquer discussão técnica. O setor privado precisa manter linhas de comunicação abertas para que, quando houver oportunidade, as negociações comerciais possam avançar — afirmou Azevêdo.

O embaixador Fernando Meirelles de Azevêdo Pimentel, diretor do Departamento de Política Comercial do Itamaraty, acrescentou que o Brasil sempre atua dentro das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), contestando acusações de práticas desleais e reiterando a legalidade de programas como o RenovaBio e das tarifas internas sobre o etanol americano.

Para o presidente do Instituto Brasileiro de Comércio Internacional, Investimentos e Sustentabilidade (IBCIS), Welber Barral, as tarifas americanas são percebidas por brasileiros como tentativa de intervenção política e ameaça à democracia econômica do país. Segundo ele, uma “narrativa proativa” que una parlamentares, setor privado e mídia é essencial para combater desinformação e proteger os interesses nacionais.

O debate também apontou para a importância de um novo acordo bilateral, capaz de equilibrar a relação comercial e evitar perdas de competitividade frente a outros produtores globais, como Argentina, Austrália e Colômbia. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que, de janeiro a agosto de 2025, o Brasil exportou US$ 26,6 bilhões para os Estados Unidos, enquanto importou US$ 30 bilhões, gerando superávit americano de mais de US$ 20 bilhões.

Senador Nelsinho Trad reforçou que o diálogo entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump seria um passo estratégico para recompor a relação econômica bilateral e abrir espaço para negociações pragmáticas:

 A política externa não pode ceder a polarizações. É preciso estratégia, serenidade e interlocução qualificada para defender nossos interesses e gerar previsibilidade para empresas e investidores.

Especialistas alertam, contudo, que o distanciamento político e ideológico entre os dois governos, somado à aproximação de eleições brasileiras, pode tornar o contencioso comercial mais duradouro, exigindo acompanhamento próximo e articulação contínua de múltiplas frentes.

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