Home InternacionalEm Kuala Lumpur, Lula e Trump acertam abertura de negociação para reverter tarifaço e pedem suspensão imediata dos 50%

Em Kuala Lumpur, Lula e Trump acertam abertura de negociação para reverter tarifaço e pedem suspensão imediata dos 50%

Reunião de 50 minutos durante a 47ª Cúpula da Asean é classificada como “muito positiva”; chanceler Mauro Vieira diz que Trump autorizou início imediato das tratativas e que objetivo é suspender os 50% enquanto durar a negociação; encontro teve a presença do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio

by Redação
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu neste domingo (26), em Kuala Lumpur, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por cerca de 50 minutos, à margem da 47ª Cúpula da Asean. No encontro, Lula pediu a suspensão imediata do tarifaço de 50% aplicado por Washington a todos os produtos brasileiros exportados aos EUA, enquanto os dois países conduzem negociações. Segundo o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o presidente norte-americano autorizou sua equipe a iniciar ainda hoje, no horário local da Malásia (11 horas à frente de Brasília), um processo de revisão. Participaram da reunião o próprio chanceler e o secretário de Estado, Marco Rubio. As delegações também trataram de futuras visitas oficiais e buscaram conter efeitos das sanções colaterais, como a revogação de vistos a autoridades brasileiras.

O encontro, realizado em um hotel na capital malaia, foi o primeiro entre os dois líderes desde a decisão da Casa Branca, em julho, de aplicar uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras com destino ao mercado americano. A medida, de alcance transversal, provocou sobressalto em cadeias de valor que envolvem desde o agronegócio até a indústria de transformação, passando por mineração, químicos, papel e celulose e bens de consumo. Em paralelo, membros do governo brasileiro e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) tiveram vistos revogados e enfrentaram outras restrições administrativas, aprofundando o desgaste diplomático.

Lula adotou, na mesa, um tom assertivo e conciliador. “O Brasil tem interesse de ter uma relação extraordinária com os Estados Unidos. Não há nenhuma razão para que haja qualquer desavença entre Brasil e Estados Unidos, porque nós temos certeza que, na hora em que dois presidentes sentam em uma mesa, cada um coloca seu ponto de vista, cada um coloca seus problemas, a tendência natural é encaminhar para um acordo”, afirmou. A condição apresentada pelo lado brasileiro é clara: suspender imediatamente o tarifaço enquanto durar a negociação, de modo a restabelecer previsibilidade para empresas e trabalhadores e impedir o cancelamento de contratos em curso.

Ao falar com a imprensa após a reunião, o chanceler Mauro Vieira classificou o encontro como “muito positivo” e informou que Trump autorizou a abertura imediata de um processo de negociação bilateral. “O presidente Trump declarou que dará instruções à sua equipe para que comece um período de negociação bilateral, que deve se iniciar hoje ainda, porque é para tudo ser resolvido em pouco tempo”, disse Vieira, sublinhando a vantagem do fuso horário de Kuala Lumpur, 11 horas à frente de Brasília, para acelerar o primeiro giro de conversas técnicas.

A presença do secretário de Estado Marco Rubio, ao lado do chanceler, deu relevo político ao diálogo. Segundo Vieira, o ambiente foi cordial e direto. Ainda de acordo com o ministro, Trump disse admirar a trajetória política de Lula, destacando sua experiência em três mandatos e a recuperação após um período de perseguição no Brasil. O gesto simbólico, embora não substitua decisões, ajuda a reduzir ruídos e a abrir espaço para concessões graduais, de ambos os lados.

As equipes discutiram, também, a possibilidade de visitas oficiais em breve. Trump manifestou a intenção de vir ao Brasil, em data a ser definida, e Lula aceitou um convite para visitar os Estados Unidos. Esses encontros costumam funcionar como marcos de anúncios concretos  como a suspensão provisória das tarifas durante as tratativas, cronogramas de revisão tarifária por setor, aprimoramento de regras sanitárias e fitossanitárias, facilitação de vistos para negócios e mecanismos de consulta com o setor privado.

No plano econômico, a suspensão temporária do tarifaço é considerada, por diplomatas e analistas, um passo essencial para estancar perdas. Um acréscimo súbito de 50% no custo de entrada do produto brasileiro nos EUA reprime margens, trava embarques e empurra compradores a buscar fornecedores de países concorrentes. O risco, avaliam fontes do governo, é transformar a mesa de negociação em um exercício de retórica enquanto contratos são desfeitos na ponta. Suspender os 50% durante as conversas reequilibra o tabuleiro e cria o mínimo de confiança para abordar questões mais complexas.

Outro eixo sensível são as medidas colaterais, como a revogação de vistos de autoridades brasileiras. O Itamaraty entende que esses temas, embora não façam parte do núcleo comercial, contaminam a confiança e elevam o custo de transação entre os países. A proposta brasileira é tratar cada frente em seu trilho, com metas e prazos definidos, de forma a evitar que tensões diplomáticas travem avanços econômicos. O desenho institucional desejado inclui a instalação de grupos técnicos bilaterais, cronogramas públicos, avaliações periódicas e participação do setor privado nas soluções.

A escolha de Kuala Lumpur como palco do encontro reforça a dimensão global do assunto. A Asean, que reúne economias altamente integradas às cadeias de suprimentos, é um fórum em que comércio, tecnologia, segurança e transição energética se entrelaçam. Ao discutir a revisão de uma medida tarifária de grande impacto num ambiente com esse perfil, Brasil e EUA sinalizam a parceiros e investidores que, apesar de divergências, buscam resolver impasses com método e previsibilidade.

No curto prazo, a métrica central de sucesso será a velocidade com que as equipes formalizam a suspensão temporária das tarifas e estabelecem um calendário claro de reuniões setoriais. Em seguida, virão os desenhos de médio prazo: uma revisão calibrada por setor, salvaguardas, mecanismos de monitoramento de fluxos e ajustes regulatórios. O governo brasileiro aponta energias, agronegócio e manufaturas como áreas em que ganhos rápidos de previsibilidade podem preservar empregos, investimentos e rotas logísticas.

No plano político, o recado de Lula de que não há razões para desavenças com os Estados Unidos funciona como norte e como antídoto para leituras de confronto ideológico. Ao autorizar a arrancada das negociações, Trump reconhece que a taxação em vigor transborda a arena retórica e impacta produção, preços e contratos. À frente da execução, Mauro Vieira se projeta como a ponte entre a decisão política e a condução técnica, responsável por transformar gestos em entregas verificáveis.

Ricardo Stuckert/PR

Analise

O encontro em Kuala Lumpur entregou o essencial: clareza de objetivos, alavancas operacionais e um relógio correndo a favor do entendimento. Lula foi assertivo ao condicionar o avanço à suspensão imediata do tarifaço de 50%. Sem esse gesto, a negociação seria uma vitrine vazia, enquanto exportadores perderiam margens e mercados. Do outro lado, Trump moveu a peça certa ao acionar sua equipe no mesmo dia, o que reduz o risco de que a pauta se dilua em ritos burocráticos e confere previsibilidade a agentes econômicos que precisam de sinais concretos para planejar embarques e preços.

Mauro Vieira se afirma como protagonista técnico-político. Seu relato de que as conversas começam “ainda hoje” estabelece urgência e cria um compromisso público com prazos. Essa transparência ajuda a ancorar expectativas do setor privado, que tem a ganhar com um cronograma conhecido e com mecanismos de consulta permanentes. A presença de Marco Rubio reforça o compromisso americano de tratar a questão em alto nível, elevando a probabilidade de que decisões relevantes não fiquem subordinadas a disputas internas.

Há riscos, e eles não são triviais. A amplitude do tarifaço e as sanções colaterais sugerem que a motivação ultrapassa a lógica estritamente comercial. Se essas frentes caminharem misturadas, um atrito em vistos pode bloquear um avanço tarifário, e vice-versa. A recomendação, portanto, é disciplinar o processo: trilhos separados (comércio de um lado; mobilidade e medidas administrativas de outro), metas mensais de entrega, relatórios públicos e uma instância de solução de controvérsias que evite ressurgimento de ruídos a cada rodada.

Também é prudente sinalizar desde já uma governança com participação empresarial. A escuta organizada de exportadores e importadores, além de órgãos de inspeção sanitária e aduaneira, tende a reduzir erros de desenho e a acelerar a implementação. Em paralelo, envolver agências de ambos os países na harmonização de requisitos técnicos pode transformar uma suspensão provisória em ganho estrutural de acesso, o que preserva competitividade e empregos.

Valorizar os autores desta página é reconhecer as entregas de cada um. Lula levou para a mesa uma mensagem inequívoca de cooperação com objetivos concretos. Trump, ao liberar a máquina de negociação imediatamente, converteu boa vontade em ação. Mauro Vieira fez a costura fina entre discurso e execução, indicando um roteiro e um relógio. Se mantiverem esse compasso, o anúncio da suspensão dos 50%, a instalação de grupos setoriais e a definição de visitas com entregas verificáveis podem transformar um gesto diplomático num processo com resultados mensuráveis — exatamente o que empresas, trabalhadores e investidores esperam de uma política externa orientada por dados e prazos.

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