Na manhã de 3 de outubro de 2025, Subramanyam “Subu” Vedam deixou a Instituição Correcional Estadual de Huntingdon, na Pensilvânia, após passar mais de quatro décadas preso por um assassinato do qual foi inocentado. Sua condenação foi anulada semanas antes, depois que um tribunal identificou que promotores haviam ocultado provas cruciais que poderiam ter desmontado o caso.
O procurador distrital do Condado de Centre retirou formalmente todas as acusações um dia antes da libertação de Vedam. Entretanto, ele não chegou a reencontrar a família: agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) aguardavam sua saída e o transferiram imediatamente para o Moshannon Valley Processing Center, uma instalação de detenção federal na Pensilvânia.
Vedam nasceu na Índia, mas vive nos Estados Unidos desde os nove meses de idade. A ordem de detenção baseia-se em um processo de deportação antigo, relacionado não apenas à acusação de assassinato, mas também a uma condenação anterior por drogas, cometida na juventude. Segundo a família, Subu nunca foi naturalizado e, enquanto cumpria a pena de prisão perpétua, a deportação não foi executada.
O caso de Subu começou em 1982, após a morte de Thomas Kinser, de 19 anos. A acusação, baseada principalmente em provas circunstanciais, apontava que Vedam teria cometido o crime com uma arma que nunca foi encontrada. Durante 42 anos, o ex-detento manteve sua inocência, enquanto recursos eram negados e o processo permanecia estagnado.
Em 2022, advogados do Projeto Inocência da Pensilvânia descobriram provas não divulgadas, incluindo relatórios do FBI que questionavam a capacidade da arma mencionada na acusação de causar o ferimento fatal. O juiz Jonathan Grine concluiu em agosto de 2025 que a ocultação de evidências violava direitos constitucionais, levando à retirada das acusações.
Durante seu tempo na prisão, Subu manteve conduta exemplar, obtendo múltiplos diplomas, incluindo mestrado com GPA 4.0, e ajudando centenas de outros presos a completar estudos. Participou de programas de alfabetização, atividades de voluntariado e mentorias. A família destaca que, mesmo após a exoneração, a detenção pelo ICE representa uma ameaça inédita, considerando que ele nunca morou na Índia desde bebê e que todos os seus familiares estão nos EUA e no Canadá.
A defesa apresentou pedido para reabrir o caso de imigração e suspender temporariamente a deportação. A decisão do governo federal é aguardada até 24 de outubro. Para os familiares, a questão ultrapassa a legalidade: trata-se da reintegração de Subu à vida e à comunidade que ele conheceu e ajudou por décadas.
ANÁLISE
O caso de Subramanyam Vedam evidencia a complexidade da interseção entre justiça criminal e imigração nos Estados Unidos. Embora a exoneração tenha reconhecido sua inocência após 43 anos, a existência de uma ordem de deportação antiga mostra como processos legais históricos podem ressurgir, criando novos desafios para indivíduos exonerados.
A trajetória de Vedam demonstra resiliência e dedicação à educação e à comunidade, mesmo em condições de extrema privação. Seu caso levanta questões sobre equidade, proporcionalidade e humanização na aplicação da lei de imigração, especialmente para quem passou décadas privado de liberdade injustamente.
O episódio também destaca lacunas na coordenação entre sistemas de justiça estadual e federal, evidenciando que a exoneração em uma esfera não garante automaticamente proteção em outra. A situação de Vedam coloca em debate a necessidade de avaliar contexto, idade, vínculos familiares e tempo de residência antes de executar medidas de deportação.
Por fim, o caso ilustra a relevância de organizações de defesa jurídica, como o Projeto Inocência da Pensilvânia, que desempenham papel central na revisão de casos antigos e na restauração de direitos fundamentais, equilibrando rigor legal e justiça social.
